O cheiro de bolo assado no fogão a lenha espalhava-se por toda a casa. O dia mal começava. A menina levantava-se depressa. Calçava seu chinelinho e amarrava o cabelo num rabo de cavalo. Tomava apenas um copo de café com leite e saía com a forma de bolo de fubá ainda quente na cabeça. Nem dava tempo de esperá-la esfriar. Precisava vender a quitanda antes que os fregueses tomassem o café da manhã.
Era mês de agosto. Clima seco, ventania e calor. Fazia mais de três meses que não chovia. O vento levantava uma poeira fina das ruas de terra batida. Folhas secas rolavam pelo chão. A menina batia de porta em porta, oferecendo fatias de bolo. Algumas donas de casa compravam-nas; muitas diziam-lhe que hoje não. Ela não podia voltar para casa antes de vender tudo. Sua mãe precisava do dinheiro para ajudar nas despesas da família.
Todos os dias eram assim. Não poder comer nenhuma fatia do bolo. Carregá-lo ainda quente até os cabelos começarem a cair no alto da cabeça onde equilibrava a forma. Voltar sem nenhum pedaço e com dinheiro no bolso a tempo de ir para o colégio e não apanhar da mãe. Época de vacas magras. Ela e seus irmãos ajudavam como podiam.
Naquele dia, a menina estava com sorte. Conseguira vender quase tudo em pouco tempo. Restava apenas uma fatia de bolo quando ela passava em frente daquele lugar que tanto a intrigava. No fim da rua da ponte, havia uma casa simples que parecia abandonada. O mato crescia ao redor. Os vidros das janelas estavam quase todos quebrados. Pedaços de papelão tampavam alguns buracos. A porta da frente não possuía trinco. A menina observava tudo curiosamente. Era a casa da Ana doida.
Sua única moradora tinha 57 anos, mas não sabia. Há muito tempo perdera-se no calendário. Perambulava pela cidadezinha goiana com seus trapos. Cabelos desgrenhados. Unhas sujas. Pés descalços. Mau cheiro. Carregava um saco cheio de toda espécie de cacarecos inúteis que encontrava nas ruas. Sem família. Vivia da compaixão dos outros. Comia quando lhe davam o quê comer. Bebia das torneiras que encontrava pelo caminho e das garrafas de pinga compartilhadas entre bêbados.
Naquele pedaço de fim de mundo, todos a conheciam, embora quase ninguém soubesse da sua história. Fazia anos que Ana estava ali. Já era parte da cidade. Patrimônio indesejável e inevitável. Alguns a temiam. Outros não a enxergavam. Poucos tinham pena dela. Crianças fugiam da sua repugnante presença ou a insultavam como a um cachorro sem dono. A menina pertencia ao primeiro grupo: tinha medo da doida
Ana inúmeras vezes dormia na sarjeta ou nos bancos da praça. Ficava dias sem voltar para casa. Preferia a rua àquele lugar. Sua casa simples e mal tratada era a única coisa que o marido havia lhe deixado antes de abandoná-la. Os móveis, com o tempo, foram se perdendo até não restar nada. Os moleques apedrejaram suas janelas. Teias de aranha, poeira e mofo dominaram o chão e as paredes. Ali não havia nem energia nem água. No teto, buracos.
A mulher não possuía lembranças. Tudo em sua mente era um grande vazio. Não se lembrava de quando fugira da casa dos pais aos 16 anos para morar com o homem que lhe jurara amor eterno. Não se lembrava do quanto havia sido espancada por ele. Nem das humilhações. Nem das traições. Não se lembrava de como havia sido bonita. Dos vários pretendentes. Dos suspiros que causava nos homens. Não se lembrava de onde vinha. Não se lembrava que, por não conseguir engravidar, seu marido arrumou outra mulher e foi embora para nunca mais.
Sozinha, Ana bebeu todos os móveis até esquecer-se de tudo. Aos poucos, alucinações tomaram conta da sua mente. A loucura abraçou-lhe aconchegadamente. Da beleza de outrora só restou-lhe seu olhar de olhos marítimos Era a personificação da degradação humana. Irreconhecível e horrenda. Fechou-se para o mundo. Quase nunca conversava com as poucas pessoas que lhe dirigiam a palavra.
Contudo, naquela manhã de agosto, Ana sentiu uma vontade imensa de ser ouvida. Foi quando abriu a porta da casa e deu de cara com a menina dos bolos. Ao ver a doida, a menina assustou-se. Quis fugir, mas a pernas não lhe obedeceram. Ana chamou a menina pelo nome e a convidou para entrar e conhecer suas filhinhas.
A curiosidade da menina venceu seu medo, fazendo-a entrar na casa da doida que, para sua surpresa, até seu nome sabia. Não acreditava que aquela mulher tinha filhas, entretanto queria certificar-se disso. Um vento gelado para aquela época do ano soprou bem na nuca da menina assim que ela pisou dentro da casa. Sentiu um arrepio por todo o corpo. Ana nem percebeu nada. A anfitriã parecia contente e entusiasmada quando disse à menina que suas crianças estavam no quarto.
A porta do cômodo estava aberta. Ao entrar ali, a pequena vendedora de bolos sentiu um mau cheiro imenso. Seus olhos não acreditaram no que viram. Sentiu-se enojada. Seus músculos abdominais contraíram-se e a pressão no seu estômago aumentou: quase vomitou. Em cada canto do quarto sem mobília, havia em monte de fezes. Eram as quatro filhas que Ana, cheia de alegria nos olhos, lhe apresentava: Maria Aparecida, Maria Madalena, Maria Vicentina e Maria José. A mulher havia parido suas filhas há uma semana.














