quarta-feira, 31 de agosto de 2011

As filhas de Ana


O cheiro de bolo assado no fogão a lenha espalhava-se por toda a casa. O dia mal começava. A menina levantava-se depressa. Calçava seu chinelinho e amarrava o cabelo num rabo de cavalo. Tomava apenas um copo de café com leite e saía com a forma de bolo de fubá ainda quente na cabeça. Nem dava tempo de esperá-la esfriar. Precisava vender a quitanda antes que os fregueses tomassem o café da manhã.
Era mês de agosto. Clima seco, ventania e calor. Fazia mais de três meses que não chovia. O vento levantava uma poeira fina das ruas de terra batida. Folhas secas rolavam pelo chão. A menina batia de porta em porta, oferecendo fatias de bolo. Algumas donas de casa compravam-nas; muitas diziam-lhe que hoje não. Ela não podia voltar para casa antes de vender tudo. Sua mãe precisava do dinheiro para ajudar nas despesas da família.
Todos os dias eram assim. Não poder comer nenhuma fatia do bolo. Carregá-lo ainda quente até os cabelos começarem a cair no alto da cabeça onde equilibrava a forma. Voltar sem nenhum pedaço e com dinheiro no bolso a tempo de ir para o colégio e não apanhar da mãe. Época de vacas magras. Ela e seus irmãos ajudavam como podiam.
Naquele dia, a menina estava com sorte. Conseguira vender quase tudo em pouco tempo. Restava apenas uma fatia de bolo quando ela passava em frente daquele lugar que tanto a intrigava. No fim da rua da ponte, havia uma casa simples que parecia abandonada. O mato crescia ao redor. Os vidros das janelas estavam quase todos quebrados. Pedaços de papelão tampavam alguns buracos. A porta da frente não possuía trinco. A menina observava tudo curiosamente. Era a casa da Ana doida.
Sua única moradora tinha 57 anos, mas não sabia. Há muito tempo perdera-se no calendário. Perambulava pela cidadezinha goiana com seus trapos. Cabelos desgrenhados. Unhas sujas. Pés descalços. Mau cheiro. Carregava um saco cheio de toda espécie de cacarecos inúteis que encontrava nas ruas. Sem família. Vivia da compaixão dos outros. Comia quando lhe davam o quê comer. Bebia das torneiras que encontrava pelo caminho e das garrafas de pinga compartilhadas entre bêbados.
Naquele pedaço de fim de mundo, todos a conheciam, embora quase ninguém soubesse da sua história. Fazia anos que Ana estava ali. Já era parte da cidade. Patrimônio indesejável e inevitável.  Alguns a temiam. Outros não a enxergavam. Poucos tinham pena dela. Crianças fugiam da sua repugnante presença ou a insultavam como a um cachorro sem dono. A menina pertencia ao primeiro grupo: tinha medo da doida
Ana inúmeras vezes dormia na sarjeta ou nos bancos da praça. Ficava dias sem voltar para casa. Preferia a rua àquele lugar. Sua casa simples e mal tratada era a única coisa que o marido havia lhe deixado antes de abandoná-la. Os móveis, com o tempo, foram se perdendo até não restar nada. Os moleques apedrejaram suas janelas. Teias de aranha, poeira e mofo dominaram o chão e as paredes. Ali não havia nem energia nem água. No teto, buracos.
A mulher não possuía lembranças. Tudo em sua mente era um grande vazio. Não se lembrava de quando fugira da casa dos pais aos 16 anos para morar com o homem que lhe jurara amor eterno. Não se lembrava do quanto havia sido espancada por ele. Nem das humilhações. Nem das traições.  Não se lembrava de como havia sido bonita. Dos vários pretendentes. Dos suspiros que causava nos homens. Não se lembrava de onde vinha. Não se lembrava que, por não conseguir engravidar, seu marido arrumou outra mulher e foi embora para nunca mais.
Sozinha, Ana bebeu todos os móveis até esquecer-se de tudo. Aos poucos, alucinações tomaram conta da sua mente. A loucura abraçou-lhe aconchegadamente. Da beleza de outrora só restou-lhe seu olhar de olhos marítimos Era a personificação da degradação humana.  Irreconhecível e horrenda. Fechou-se para o mundo. Quase nunca conversava com as poucas pessoas que lhe dirigiam a palavra.
Contudo, naquela manhã de agosto, Ana sentiu uma vontade imensa de ser ouvida. Foi quando abriu a porta da casa e deu de cara com a menina dos bolos. Ao ver a doida, a menina assustou-se. Quis fugir, mas a pernas não lhe obedeceram. Ana chamou a menina pelo nome e a convidou para entrar e conhecer suas filhinhas.
A curiosidade da menina venceu seu medo, fazendo-a entrar na casa da doida que, para sua surpresa, até seu nome sabia. Não acreditava que aquela mulher tinha filhas, entretanto queria certificar-se disso. Um vento gelado para aquela época do ano soprou bem na nuca da menina assim que ela pisou dentro da casa. Sentiu um arrepio por todo o corpo. Ana nem percebeu nada. A anfitriã parecia contente e entusiasmada quando disse à menina que suas crianças estavam no quarto.
A porta do cômodo estava aberta. Ao entrar ali, a pequena vendedora de bolos sentiu um mau cheiro imenso. Seus olhos não acreditaram no que viram. Sentiu-se enojada. Seus músculos abdominais contraíram-se e a pressão no seu estômago aumentou: quase vomitou. Em cada canto do quarto sem mobília, havia em monte de fezes. Eram as quatro filhas que Ana, cheia de alegria nos olhos, lhe apresentava: Maria Aparecida, Maria Madalena, Maria Vicentina e Maria José. A mulher havia parido suas filhas há uma semana.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Rua da Saudade

As pedras daquela ruazinha já haviam se acostumado a ouvir os sons dos chinelos, das botinas e dos tamancos que, ao acompanharem seus mortos, derramavam suas lágrimas durante o cortejo. Toda vez que os sinos da Matriz anunciavam a missa de corpo presente, a pequena artéria que irrigava o cemitério da cidade preparava-se para conduzir mais um filho de Deus ao descanso eterno. Vestia-se de luto a Rua da Saudade.
Naquele percurso de muitas dores e despedidas, havia, entre outras, uma casa branca com um alpendre delimitado por muretas onde seus moradores sentavam-se para observar os passantes ou ver o tempo esvair-se preguiçosamente. Habitavam ali mãe, pai e filha. Toda vez que um caixão passava em frente a casa, a menina corria para espiá-lo pela fechadura. Em sinal de respeito, comerciantes e moradores fechavam suas portas quando o falecido descia rumo ao enterro.
Um dia mãe e filha foram ao velório de uma vizinha esfaqueada pelo marido. Foi a primeira vez que a menina viu o rosto da morte. Jamais se esquecera disso. O caixão aberto. No meio da sala. A mulher com os olhos fechados. Expressão assustada. Mãos cruzadas sobre o peito. Algodões tampando nariz e orelhas. Cheiro de rosas. Velas queimando. Gente sentada em volta do corpo. Choro. Tristeza. Café servido. E seu medo.
 Depois desse dia, Maria das Dores nunca mais quis ver nenhum cortejo fúnebre. Escondia-se no quarto até todos passarem. Rezava inúmeras ave-marias e outros tantos padre-nossos para espantar seu medo. Torcia para que ninguém morresse na cidade. Durante alguns dias, isso até dava resultado. Mas bastava ela ficar um pouco tranquila para que alguém, descaradamente, morresse e fosse embora pela Rua da Saudade.  Queria morar em outro lugar. Bem longe dali.
 Para espantar o medo ou para distrair seus pensamentos, a menina adquiriu um hábito estranho: anotava num caderninho de capa preta o nome das pessoas da cidade que iam morar no cemitério. Aos poucos, ano após ano, uma lista de nomes foi enfeitando as folhas do seu obituário. Quanto mais o preenchia, menor era seu medo. Depois de anos de anotações, suas folhas, finalmente, acabaram.  Pensou em comprar outro caderno. Preferiu esperar pelo próximo morto. Ela já tinha quase 30 anos.
Nem feia nem bonita. Nem gorda nem magra. Nem alta nem baixa. Sem graça. Sem pretendentes. Esquisita. Terminou o magistério, porém não quis lecionar. Ajudava a mãe nos afazeres domésticos. Cozinhava mal, mas sabia arear vasilha como ninguém. O pai até tentou  arranjar-lhe um casamento. Não gostava de ter uma filha solteira naquela idade. Queria netos. Homens de preferência. O escolhido foi o filho de seu compadre. Ela não disse sim ou não. Conformou-se.
Entretanto, a tentativa do pai não vingou. Seu futuro marido estava enrabichado por outra.   Ninguém sabia. Era a mulher do açougueiro. Faceira e fogosa. Difícil de resistir. O rapaz, perdido de paixão. Mesmo assim, não soube recusar o pedido do pai e do padrinho. Para livrar-se do sacrifício, na véspera do casamento, fugiu com a amante. Das Dores não se abalou. Pensou no seu caderno preto.
 Meses se passaram sem defunto na cidade. Ela ainda não havia comprado um novo obituário, quando, de uma hora para outra, sua mãe que jamais reclamara de uma dor de cabeça caiu de cama. No início, surgiram-lhe manchas vermelhas e bolhas nos ombros, pescoço, rosto e couro cabeludo. Depois se espalharam por todo seu corpo. As bolhas rebentavam e deixavam a pele em carne viva. Espetáculo horrendo. A mãe sentia o corpo arder e queimar. Recusou ir ao médico. Mandou a filha chamar uma benzedeira. Acreditava que tudo aquilo era obra de alguma feiticeira.
Somente quando já era tarde, descobriram ser fogo selvagem. As chagas estavam completamente infeccionadas. Os emplastros caseiros feitos pela benzedeira só pioraram a situação.  A doença não teve piedade de sua mãe: matou-a. O nome que Das Dores esperava para comprar outro caderno, enfim, surgira. Ela esquecera-se disso e de todo o resto também. Não chorou. Não velou o corpo da mãe. Não desceu a Rua da Saudade para acompanhar o caixão. Não viu a terra engolir sua defunta. Endoidecera de vez.

domingo, 17 de abril de 2011

A centenária


Todos os dias ela tomava um copo de Sangue de Boi antes do desjejum. Nem se lembrava mais de quando havia adquirido esse hábito. Acreditava que o vinho melhorava sua disposição  Há lentos anos, seus dias eram quase sempre similares. Acordar. Comer. Cuidar das plantas. Dar comida para sua gata. Alimentar as galinhas. Dormir.


Morava numa casinha tão simples: banheiro, quarto e cozinha. Uma cama, um sofá velho, um fogão, uma prateleira de madeira e uma cadeira de fio era tudo que possuía. Como companhia só a sua Chaninha, uma felina vira-lata que adorava se enroscar em suas pernas reumáticas, magras e cansadas.

Recebia poucas visitas. Apenas seu sobrinho-bisneto, Juvenal, e o menino de entregas, Pedrinho, iam vê-la uma vez ou outra. Seus vizinhos temiam-na. Diziam que ela era uma velhinha muito má. Boatos apregoavam que, anos atrás, ela havia matado seu cachorrinho de estimação para guardar os ossos como lembrança. De fato, na parede de seu quarto, o crânio de um animal pequeno encontrava-se dependurado.  Comentavam ainda que, certa vez, ela matara todos os filhotes de sua gata a pauladas e os cozinhara para alimentar a própria mãe. Certeza disso ninguém possuía.

Vivia do dinheiro da aposentadoria que Juvenal, mensalmente, pegava no banco para ela. Não sabia ler nem escrever. Aprendeu a diferenciar as notas de dinheiro por meio dos animais  estampados nas cédulas. Conhecia o beija-flor, a tartaruga, a garça, a arara e o mico-leão-dourado, mas gostava mesmo era da onça pintada. Raramente, pescava um peixe.

Uma vez por semana, Pedrinho ia a sua casa para  entregar-lhe as compras e ver se ela precisava de mais alguma coisa. Para o menino, ela oferecia-lhe sempre um beija-flor de agrado pelo serviço. Ele trazia carne, leite, pão, farinha e, às vezes, algum medicamento. O arroz e o feijão davam para o ano inteiro. As verduras, ela as apanhava na pequena horta que Juvenal plantara.

Desconfiava de todo mundo. Tinha medo de ser roubada e escondia muito bem seu dinheiro. Receava que alguém pudesse invadir sua casa para furtá-la. Contudo, seu isolamento era tamanho que nem os ladrões se lembravam dela. A solidão não saia do seu lado. Sua única distração era um rádio velho que não cantava as modas da sua época, mas lhe dava notícias da cidade. Embora não soubesse de quem se tratava, ouvia atenta o nome dos falecidos e a hora do enterro anunciado. Ficava um tempão pensando em quando seu nome sairia daquele aparelho. Talvez seu sobrinho sequer anunciasse a sua partida. Lágrimas não seriam derramadas por ela.

Apesar de temer a morte, muitas vezes rogava a Deus para que ele não a esquecesse. Carregava mais de um século nas costas encurvadas. Estava cansada da vida. Já havia enterrado tanta gente que até perdera a conta. Todavia, lamentava apenas a morte do seu único filho, apesar de jamais ter tido a sua companhia. Fruto de um abuso sexual, o menino foi lhe arrancado assim que nasceu. Órfã aos 7 anos e mãe solteira aos 14, não possuía voz alguma para reclamar o menino. Sua tia que era estéril ficara com a criança. A única coisa que lhe restara foi espiá-lo de vez em quando.

Entretanto, para completar sua tristeza, aos poucos, até esse consolo lhe foi tirado. Sua criança era um pouco diferente das outras. Possuía deficiência mental.  Aproveitando-se disso, os pais “adotivos” incutiram o menino de que a mulher que, às vezes, o visitava queria machucá-lo. Assim ele acabou não querendo mais vê-la. Fugia da sua presença amedrontado. Rejeitada pelo filho, sumiu-se no mundo. Perambulou por tantos lugares. Colecionou rugas e calos. Cansada e sozinha, um dia resolveu voltar. Seu filho já estava um homem feito. 

Foram mais de 30 anos de andança. Não teve outros filhos. Nunca mais conheceu outro homem. Jamais esqueceu aquele que lhe roubaram, por isso voltou. Porém, somente após muita insistência, os pais adotivos permitiram-lhe reencontrar o filho. Ele não a reconheceu. Ela quis abraçá-lo, mas ele não deixou. Com o pouco dinheiro que juntara, conseguiu uma casinha perto dele para morar. Aos poucos, foi ganhando sua confiança. Vivia feliz com as migalhas de atenção conquistadas. Durou pouco. A dengue hemorrágica levou seu menino. Foi sua dor mais forte.

Sem perspectiva, ficou por ali. Viu seus usurpadores se forem também. Não sentiu alívio nem consolo. Endurecera-se.  Não saia mais de casa. Refugiou-se em seu esconderijo. As rugas tomaram conta do seu rosto. Seus cabelos, escondidos por baixo de um lenço, ficaram totalmente brancos. Encolhera. Nuvens brancas tomaram conta dos seus olhos. O tremor envolveu suas mãos. Seus dentes abandonaram-na.


Esperou tanto tempo pela morte que até cansou. Todo dia olhava para o céu, pedindo resposta. Escutava apenas o silêncio. Mofou com a chuva. Empoeirou-se com a seca. Cultivou  teias de aranha. Desistiu de esperar. Continuou vivendo sua vidinha de sempre. Cozinhava duas vezes por semana. Comia o resto noutros dias. Não tomava banho. Ocasionalmente, passava apenas um pano úmido nas partes íntimas. Aprendeu a gostar dos dias que Pedrinho ou Juvenal iam vê-la, embora não lhes demonstrasse. Eles eram a vida lá fora. A vida que ela abandonara para sempre.

Num dia de domingo, enfim, sua espera acabou. Era noite de tempestade.  A morte veio de mãos dadas com seu filho. Seu único sonho. Ela tinha 107 anos quando o garrafão de vinho foi vertido pela última vez. Pedrinho encontrou seu corpo já em decomposição. Estava encolhido na cama. O menino avisou Juvenal. Enterraram a centenária às pressas. Não houve velório, mas a nota de seu falecimento foi anunciada no rádio. Ninguém se importou.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A noiva e a rosa


O carro importado que ela alugara com direito a chofer, já havia dado várias voltas no entorno da Igreja. A noiva estava um pouco adiantada. Ainda faltavam mais de trinta minutos para o início da cerimônia. Entretanto, pelo horário marcado no convite, o casamento já deveria ter começado. Adiantar a hora da cerimônia no convite estava tornando-se uma estratégia comum dos noivos para evitarem atrasos de convidados e padrinhos. Noiva atrasada estava fora de moda e certos religiosos até cobravam multa por tal desrespeito.

De dentro do Chrysler negro, ela avistara seus pais, o noivo e alguns convidados na porta do templo católico.  Isso só fazia aumentar o seu nervosismo. Foram meses se preparando para o grande dia ou quem sabe a vida inteira e, mesmo assim, aquele frio na barriga e o suor excessivo em suas mãos. Nem mesmo o ansiolítico que havia tomado surtia-lhe efeito.  Precisava manter-se calma ou sua maquiagem estaria arruinada. Horas no salão de beleza e tanto dinheiro gasto no dia da noiva não poderiam se perder dessa forma.
           
Escolhera minuciosamente todos os detalhes da cerimônia e da recepção: da cor do tapete à marca do frisante. Preparar seu casamento foi um trabalho exaustivo e dispendioso. Decoração, coral, buffet, DJ, espaço de festas, cerimonial, mesa de bolo, doces, fotos, filmagem, vestido de noiva e buquê, tudo isso custava caro.  E ela gastara uma pequena fortuna para realizar seu enlace matrimonial. Muito mais do que planejara.

E o então planejado dia havia chegado e ela estava prestes a dar um importante passo na sua vida. Como poderia imaginar que um dia estaria assim - vestida de noiva. Tantas vezes pensou que ficaria para titia. Até encontrar seu noivo, não sabia o que era amar e ser correspondida. Amara muito, mas outrora sempre sozinha. Agora era diferente. Apaixonara-se pela pessoa certa. Sentia-se amada. Se aquela história de que cada pessoa possui uma alma gêmea fosse verdade, ela estava certa de que encontrara a sua. Uma sensação tão boa, que nem conseguia descrevê-la, invadia seu peito só de pensar em seu amado.

Em pleno devaneio, a noiva nem percebera que o carro aproximara mais da Igreja. A movimentação do lado de fora cessara. O celular do chofer, finalmente, toca. Era a cerimonial avisando que ele já poderia estacionar. O noivo, os padrinhos,  a dama, o pajem, os pais do noivo e a mãe da noiva já haviam entrado suntuosamente no templo. Apenas seu pai a esperava do lado de fora. Emocionado. Sua filhinha iria se casar. Os convidados, lá dentro, aguardavam o grande momento - a entrada da noiva.

O chofer descera do Chrysler para abrir-lhe a porta. Uniformizado. Luvas brancas e cap. Estendeu-lhe a mão. Cavalheiramente. Com a ajuda da sua cerimonial, a estrela do noite consegue descer do carro. Aquele véu imenso e o peso do vestido atrapalhava bastante a noiva. Enquanto a profissional ajeitava-lhe, uma força estranha projeta seu olhar para a avenida. Carros passam. No canteiro central, ela vê um homem. Seria ele? Não acredita no que seus olhos veem. Camisa preta, calça jeans. Na mão esquerda, uma rosa vermelha. Na outra, uma folha de papel.

Há dez anos não encontrava aquele homem. Eram colegas de trabalho. Desde de quando ela escreveu-lhe, declarando seu amor, nunca mais tivera notícias dele. A única coisa que soube foi que a carta chegara em suas mãos antes do jovem mudar de país. Durante anos, ela guardara um amor não correspondido por ele. Mas ao resolver contar-lhe tudo, ele já estava de mudança para a Bélgica. Jamais soubera, sequer, qual tinha sido a reação dele ao ter ciência do seu amor. Agora seu ex-colega estava a poucos metros de distância. Sorrindo. Aquele papel. Ela adivinha. Sua carta.

Segundo eternos embalam o encontro dos seus olhares. Ela não entendia como ele soubera do seu casamento e o que estava fazendo ali. Justo  agora. Os trompetes, enfim, anunciam a entrada da noiva. A cerimonial confere tudo. Seu pai oferece-lhe o braço. Eles não percebem a pertubação que o estranho do outro lado da rua lhe provocara. Tudo pronto. Ela olha para trás pela última vez. O homem beija a rosa e a atira rumo à noiva.  A porta da Igreja se abre. Ela encontra o brilho dos olhos do seu noivo no altar. Aquele  sorriso radiante a recebe. A rosa sangrando no chão. Ninguém nota.      

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A menina e o andarilho


Há quanto tempo caminhava? A menina não sabia. Seu vestido de bolinhas azuis já estava tão sujo e desgastado. Até encolhera, mas ela nem percebeu. Só tinha olhos para ver o mundo. E viu tantas coisas. O belo. O triste. O novo. O horrível. O velho. O feliz. E o morno. Pelo caminho, sentiu o vento bagunçar seu cabelo; a chuva lavar seu rosto; o sol aquecer seu corpo; o frio arrepiar sua pele.

Mas gostava mesmo era dos dias cinzas. Combinava mais com as suas incertezas. Quando as nuvens encombriam todo o céu e não deixavam brecha para os raios solares, sentia uma paz melancólica que enchia de suspiro o seu peito. Seus passos eram mais leves em dias assim.

Percorria o trajeto que lhe traçaram. Retas. Curva. Círculos. Ziguezagues. Pisou terra batida, asfalto, cascalho, barro, grama e poeira. Andou nos trilhos e trieiros. Parou. Pegou atalhos. Recuou. Desviou do caminho. Seguiu em frente. Nos ombros, carregava sempre certo pessimismo: companheiro da sua insegurança. Contudo, ainda guardava a fé. Caminhava sozinha.

Naquele dia, entretanto, enquanto descansava, admirando o laranja do pôr-do-sol, a menina avistou um andarilho. Ele avançava de um trajeto diferente do seu e vinha em sua direção. Ela estava sentada em uma pedra que repousava no ponto de convergência das duas estradas: a sua e a do andarilho. Pensou em ir embora dali. Não foi. Esperou. Não sabia o porquê.

Só então percebeu que a partir dali as duas estradas eram uma só. Um frio,de repente, invadiu sua barriga. O andarilho se aproximava. Calmamente. Ela viu uma luz ao redor do desconhecido. Quis fugir. As pernas não lhe obedeciam. De fato, a menina era covarde: mais um de tantos defeitos. Suas virtudes, ela nunca as enxergara, embora as possuísse. Todavia, não era só medo. Sentiu algo novo. Inexplicável.

Trazia consigo um sorriso o andarilho. Estendeu a mão para a menina. Ela vacilou. Segundos eternos envolveram a sua decisão. A mão ainda estendida. A espera. A dúvida. O medo. O sim. Ela sentiu seus dedos se entrelaçarem aos dele. Suas mãos se encaixaram. Aconchegantes. Seguiram juntos pelo mesmo caminho. Era felicidade o que ela sentia?Também não sabia.

terça-feira, 9 de março de 2010

Crônica de uma farmacêutica III


Primeiro a ventania. Chupetas, bicos de mamadeira, refis de lenços umedecidos e outros objetos leves dispostos nas gôndolas da perfumaria são levados ao chão. Bastam poucos segundos para a bagunça ser feita. É preciso fechar as portas à meia altura para conter a rebeldia da criança arteira chamada vento.

O céu se veste de um cinza muito escuro e, logo, o tempo fecha a cara por completo. Relâmpagos e trovões anunciam a chegada da tempestade. Na rua, pés aumentam a velocidade dos passos à procura de abrigo. Os clientes também desaparecem apressados da drogaria.

Depois a chuva. Um pingo forte ali, outro acolá. Alguns ainda teimam em não abandonar as nuvens, mas a teimosia dura pouco. A água cai de vez: forte e abundante. A tempestade derrama toda a sua fúria. Para completar o cenário do início da tarde, a energia nos abandona.

Sem nada a fazer, os minutos passam lentos demais. Ninguém entra nem para comprar sit pass ou colocar um real de recarga da Oi. O marasmo senta-se ao meu lado e me acompanha no ritmo inquietante do balanço da minha perna direita. E a chuva continua. Provavelmente, sua melodia embala o sono de quem fica em casa, enquanto aqui é a trilha sonora do meu fastio.

Não há sinal de trégua mesmo após mais de meia hora de tempestade. As goteiras começam a surgir. Coloco um balde debaixo de uma. Os outros funcionários retiram as caixas de medicamentos que molham. O socorro às mercadorias é prestado com eficácia. Nenhuma avaria.

Observo a rua. A enxurrada corre pelo asfalto. Volumosa. Arrasta lixo e mais lixo. A tampa de um bueiro se abre e de lá surgi um rato. Atordoado. O bicho é carregado pela água até encontrar um galho de uma árvore que caiu no chão. Sobrevive. Poucos carros se arriscam no temporal. Passam devagar.

A chuva, enfim, diminui o suficiente para trazer uma mulher encharcada para dentro da drogaria. A água escorre de suas roupas, formando uma pequena poça no chão. Cautelosa, ela se aproxima do balcão e eu me levanto para atendê-la. Ela hesita. Percebe que não estou sozinha. Com um gesto de mão, me chama para um canto do estabelecimento.

Procuro os olhos dos meus colegas e encontro-os em um misto de susto e curiosidade. Eles temem o mesmo que eu: assalto. Entretanto, a mulher não carrega nem bolsa nem nada. Talvez fosse uma isca. Os bandidos devem estar esperando o momento certo para agirem. O movimento na rua ainda não se restabelecera. Perfeito para os assaltantes.

Arrisco-me. Vou até a mulher. Penso não haver perigo. Só vejo súplica e constrangimento em seu rosto cheio de manchas. De sol. De idade. De sofrimento. Assim que chego bem perto, ela me diz entre sussurros:

- Moça, preciso lhe fazer um pedido. Tem como você me arrumar umas seringas usadas?

- Para que a senhora quer seringas usadas? - pergunto espantada.

-Não tenho mais dinheiro para comprá-las e necessito injetar droga nas minhas veias, senão enlouqueço. Vendi minha geladeira para comprar cocaína e não me sobrou nada. Não precisa fazer essa cara, moça. Eu já peguei todas as doenças que podem ser transmitidas assim. Para começar, sou soro positiva. Já adquiri malária, Chagas, hepatite B e C e por aí vai. Sei que vou morrer logo.

Perplexa, engulo um resto de saliva que desce seco pela minha garganta antes de dizer um não. Penso até em lhe dar seringas novas. Não sei o que fazer e as palavras me fogem. Antes que eu reaja à situação, a mulher sai cabisbaixa. Nem insiste. Não chove mais.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Volver


Da janela,
contemplo o amarelo
de pontos esparsos
na vastidão do cerrado
Se não fosse o fugaz
colorido dos ipês,
diria que nada mudou

Conheço cada árvore,
cada tronco retorcido
Do jatobá, sei da sua sombra,
Da barriguda, sei da sua empáfia
Elementos de um quadro inconstante,
emoldurado por lembranças,
que vejo pelo caminho

Avisto a morte estirada no asfalto
do tamanduá e do tatu
As queimadas só chegam
daqui a um mês
Acompanho a marcha tranquila do rio
até perdê-lo na próxima curva
e reencontrá-lo mais adiante
em outras águas

O sol e as nuvens me escoltam
pela estrada que ainda é longa
A frente encontro o vermelho
da bandeira na mão do peão
que avisa a passagem da boiada
Vejo de perto os olhos tristes dos animais
que passam lentos por mim
e se enquadram  na minha paisagem

Tantas idas e vindas
que nem sei se caminho
ou se carrego na bagagem essa estrada
até chegar ao destino
que cortei há algum tempo,
mas deixei raízes fincadas

O velho Gigante Adormecido
me dá as boas-vindas
Lá do alto,
ele sorri pra mim,
embora ninguém perceba
Não é fácil descobrir
a sutil movimentação
do perfil do seu rosto
esculpido na pedra

Sinto o cheiro da minha terra,
o gosto da minha gente
e sei que a viagem termina
para ser recomeçada

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Tragédia no Rio das Águas: crianças do grupo escolar morrem afogadas

O barco que levava os alunos do grupo escolar para um passeio naufragou no início da tarde de ontem. Vinte e duas crianças, entre seis e nove anos de idade, estavam na embarcação. Somente cinco estudantes e três adultos (duas professoras e o comandante) sobreviveram. O corpo de bombeiros já encontrou todos os corpos.

Ainda não se sabe o motivo do acidente e por que não havia coletes salva-vidas para as crianças. A população está perplexa com o acontecimento. Os pais choram a morte de seus filhos. Alguns apontam culpados. Outros culpam si mesmos. E todos questionam a Deus.

De acordo com diretora da Escola Municipal, Margarida Luz dos Santos, todas as crianças possuíam autorização escrita dos pais para o passeio. Ela alega que não sabia da inexistência dos salva-vidas no barco. “Lamento muito essa tragédia”, afirma com os olhos lacrimejantes.

Pedro e Thiago, duas crianças sobreviventes, conseguiram nadar até a margem do rio. As outras três foram salvas pelas professoras, tia Lúcia e tia Cláudia. Ambas estão chocadas e esclareceram que, infelizmente, não conseguiram ajudar todos os alunos.

Um fato curioso, porém, chamou a atenção dos pais de Júlia, uma das crianças da escola. Eles contam que a filha, apesar de estar na lista para o passeio, não embarcou. “Nossa filha foi salva por um anjo de Deus”, comentam.

Segundo a menina de sete anos, ela brincava com sua bolinha enquanto esperava na fila para entrar no barco. Sem quer, Júlia deixou o brinquedo cair no chão e ele rolou para longe. Quando a menina foi buscá-lo, uma mulher a chamou pelo nome. “A moça me deu um sorvete de chocolate e segurou minha mão”. As professoras não perceberam a ausência da aluna e o barco partiu sem ela.

“Depois de terminar meu sorvete, ela me deu um beijo e foi embora”, explica a criança. A aluna lembra que a mulher tinha os cabelos pretos e cacheados e usava um vestido azul. Entretanto, ninguém viu ou conhece a mulher do sorvete. O único sorveteiro da região, Seu Joaquim, também alega não ter vendido nenhum sorvete de chocolate durante a tarde de ontem e, muito menos, qualquer outro sabor para a pessoa descrita pela menina.


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Entre pentes e penteados

- Florzinha, nem te conto. Na semana passada, peguei meu amor na cama com o meu melhor amigo. Eles não tiverem nenhum pingo de consideração por mim. Só esperaram eu sair para o trabalho, deixar meu apartamento livre e... Estou completamente em frangalhos. Precisei até mudar de cidade. Hoje é o meu primeiro dia aqui e você, querida, minha primeira cliente.

Com atenção e curiosidade, escuto o desabafo. Sábado à tarde. Barulho intenso. A fumaça toma conta do ambiente. Sinfonia descompassada de mulheres. Cheiro de amônia e vaidade. Cabeças submetidas a exagerado calor, embora a maioria o menospreze. Alguns dedos sagram, mas nada grave. São apenas bifes. Coisas corriqueiras em um salão de beleza.

Fico impressionada com tantas conversas interessantes e, às vezes, engraçadas ou tristes que ouço nesses lugares. Quase um consultório de psicologia comunitário. Aliás, acredito que se toda cabeleireira ou manicure tivesse oportunidade de cursar psicologia, os salões viveriam abarrotados. Marcar horário para fazer escova, demoraria dias.

São histórias de mulheres que, insatisfeitas com o casamento, arrumam amantes. Histórias de filhos usuários de drogas ou de filhas que engravidaram na adolescência. Lamentos de esposas traídas que fingem não saber de nada só para continuarem na mordomia. Jovens entusiasmadas com moda e sexo. Narração de viagens maravilhosas. Exibição de famílias perfeitas. Alegria proporcionada pelo filho que passou no vestibular ou pela filha que colou grau na faculdade. Tristeza pelo nódulo que surgiu na mama e o medo de perder o cabelo com a quimioterapia. E, é claro, fofoca, muita fofoca.

Os salões de beleza se espalham por todo canto, desde os mais simples de fundo de quintal aos mais sofisticados. Escova inteligente. Escova progressiva. Escova definitiva. Escova de chocolate. Escova de morango. Sem falar de cortes, coloração e alisamento de cabelos, da depilação, das massagens, das unhas e sobrancelhas. Ainda bem que aprendi a fazer quase tudo sozinha. Dessa forma consigo economizar bastante. Todavia, em ocasiões especiais, não posso dispensar o serviço de um profissional.

Foi em um momento desses, preparando-me para ser madrinha de casamento de amigos da faculdade que conheci Rafael: o mais novo funcionário do salão e o dono do desabafo que ouvi. Mal fomos apresentados, ele já estava me contando detalhes de sua vida. Penso que de tanto escutar suas clientes, era a sua vez de falar. Quanto a mim, adoro ouvir.

- Morei em Portugal durante cinco anos. Fiz curso de gastronomia e trabalhei em restaurantes finos na Europa. Abandonei o Brasil quando descobri que minha noiva havia feito um aborto de um filho meu, sem me consultar. Ela nem me contou que estava grávida. Meu sonho era ser pai. Eu a amava, mas, por causa de tudo isso, não dava mais para continuarmos juntos. Desde então, nunca mais me interessei por mulheres. Conheci meu último namorado na Europa. Ele também era brasileiro e resolvemos voltar para o Brasil, já que ele havia recebido uma proposta de trabalho irrecusável por aqui. Namoramos seis anos. Mudei até de profissão. Olha o que eu recebo em troca – tamanha deslealdade.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Crônica de uma farmacêutica II

Olho o relógio: atrasada (novamente). Sol queimando a pele. A temperatura beira aos 40°. Dentro do carro, todavia, a sensação de calor é bem maior. Como sinto falta de um ar-condicionado. Derreto-me. O suor escorre por cada canto do meu corpo durante todo o percurso - do restaurante ao meu serviço.

Enfim, desacelero o carro. Procuro uma vaga para estacionar em frente à drogaria onde trabalho. O que vejo é uma fila de carros parados juntos ao meio-fio. Nenhum espaço livre. O jeito é dar a volta no quarteirão para procurar um lugar. Encontro-o. Ele está bem ali, de cara para o Centro Espírita do bairro, entre um Gol e um Chevette tubarão. Tão pequeno. Espaço suficiente apenas para colocar meu carro. Conclusão: preciso fazer uma baliza difícil e bem feita. Para mim, tarefa quase impossível.

Embora fuja quase sempre desse tipo de vaga, resolvo tentar. E tento, tento e tento... Até perco a conta. Detesto estacionar assim. Ainda bem que o trânsito já está tranquilo e, pelo menos, acredito não haver ninguém me observando. Somente após alguns longos minutos, estaciono. Alívio.

- Socorro, me tira daqui. Tô preso, socorro – é o clamor que ouço ao sair do carro. Os gritos aumentam. Procuro saber de onde veem. Saem de dentro do Centro Espírita. Chego mais perto e vejo um senhor de cabelos brancos. Reconheço-o.

- O que você está fazendo aí, Chico? – pergunto.

- Uai, eles prendeu eu aqui. Num sei. Acho que matei um homem.

Chico é uma figura folclórica daquele pedacinho de periferia. Cabelos brancos que de vez em quando é pintado com restos de tinta de alguma cabeleireira. Sorriso completamente careca. Aparenta ter mais de 70 anos de idade, mas ninguém sabe ao certo quantos anos ele tem. Desde que surgiu no bairro, há quase dez anos, afirma ter 61. Para ele, sua idade não aumenta mais. Possui capacidade mental incompleta. Pureza de alma cativante.

Assim que comecei no meu novo emprego – responsável técnica por mais uma drogaria - conheci o Chico. Toda drogaria que se preze tem um ou mais clientes ilustres que nos visitam diariamente para mendigar um pouco de atenção. São como o Ezequiel ou o Geleia do meu antigo trabalho. Tenho saudades dos dois.

Ezequiel parece até um papagaio de tanto que repete a mesma coisa. Um medo enorme da polícia o assombra. Possui 46 anos. Faz contagem regressiva, com seis meses de antecedência, no mínimo, para o dia do seu aniversário que ocorre no mês de agosto. Na data tão esperada, cobra seu presente. Pode ser uma nota de 20 ou de 50 reais. Adora ver seu retrato e exibi-lo às pessoas. Frequentemente, quer dinheiro para completar o que já tem e comprar meio quilo de carne moída, porque, como ele mesmo alega: “comer sem carne num presta”.

Geleia, por sua vez, é um jovem negro e manco da perna esquerda. Paralisia infantil. Gosta de ver e conversar com as garotas bonitas do seu bairro, mas a maioria não lhe dá confiança. Para cumprimentá-las, beija, de modo cavalheiro, o dorso de suas mãos. Aprendeu em um filme da sessão da tarde. Evangélico, não perde nenhum culto; só, a paciência quando alguém afirma tê-lo visto dar em cima de mulher casada. Mentira.

No primeiro dia do meu novo trabalho, Chico chegou sujo e com um saco de cacarecos e lixo nas costas. O personagem dos meus medos infantis: o homem do saco que rapta criancinhas mal-criadas e que fazem xixi na cama. Deu-me um sorriso iluminado e me estendeu a mão. Cumprimentei-o. Ele todo feliz disse ao meu chefe que eu não tinha nojo dele. Desde então, todos os dia, Chico nos visita. Sempre pede um real para comprar paçoca de amendoim. É o primeiro a noticiar o velório de alguém e comparece em quase todos, principalmente, quando servem comida e café.

Os velórios são frequentes por ali. A maioria é de jovens assassinados por envolvimento com o tráfico de drogas. Às vezes, ocorrem até tiroteios durante o dia. Acerto de contas. A polícia chega por terra e por ar. Fecham entrada e saída do bairro. Longe do Rio ou de São Paulo, Goiânia também possui favelas. As nossas, porém, horizontais.

Foi em um desses velórios, assassinato de um traficante de 17 anos, que Chico escutou, entre piadas e lamentos, alguém dizer que certo fulano estava preso, porque havia matado um homem. Logo deduziu que só era preso quem matasse outra pessoa.

Eu soube disso pouco depois que consegui encontrar o zelador do Centro Espírita para destrancar a porta que prendia o mais ilustre cliente da drogaria: aquele que buscava dia-a-dia amostra grátis de ampolas de atenção, drágeas de respeito, comprimidos de carinho e xarope de amizade. Soube ainda que, enquanto Chico estava no banheiro, a secretária do Centro Espírita, sem perceber sua presença no prédio, fechou a porta e saiu para o almoço.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Acometimento



Às margens do Velho Chico, um grupo começa uma briga. Fico observando-os de longe. Os raios solares ainda se espreguiçam sobre a Terra. Covardia: são mais de dez contra um. Não consigo contá-los direito. Eles se movimentam rapidamente. A criatura tenta fugir, mas não pode. Tenta revidar, porém é atingida por todos os lados. Penso em ajudá-lo. Talvez afugentar os agressores. Contudo, uma força invisível me impede.



A natureza é impressionante. Queria saber por que todos estão furiosos com aquele ser. O que será que ele deve ter aprontado? Fêmea, alimento, traição. Não sei. Entretanto, provavelmente, aquela agressão não era gratuita. Os animais não são como nós. Alguma coisa muito séria o pardalzinho aprontou. Sinto compaixão pela ave, todavia permaneço paralisada. Nunca presenciei um espetáculo como esse.


Ainda bem que a cena dura poucos minutos. Após várias tentativas, o pardal encontra uma brecha para evadir-se e alça vôo. Os outros até tentam alcançá-lo. Felizmente, ele é mais rápido. Culpado ou vítima. Desaparece no horizonte. Vai embora para longe.





terça-feira, 20 de outubro de 2009

Polvilho de Araruta



Pequeninos passos vão deixando marcas pela casa. São formados por um fino pó branco. Os pés que os carregam, poucos minutos atrás, subiram na cadeira, alcançaram à mesa e pularam, numa manobra arriscada, no armário da cozinha. Além de panelas, pratos, talheres e copos dentro do móvel, havia cinco latas de alumínio de tamanhos distintos na parte de cima. Todas enfileiradas em ordem decrescente. Cada uma guardava um ingrediente: açúcar, sal, farinha de mandioca, café e o polvilho de araruta.

A lata procurada estava bem na ponta e a dona dos passos quase a derrubou. A menina de quatro anos de idade sabia muito bem onde a mãe guardava aquela brancura. Apesar da indústria de alimentos terem substituído o polvilho de araruta pelo de mandioca ou pela farinha de trigo e de milho, aquela casa ainda preferia esse ingrediente de nome engraçado para preparar pães de queijo, biscoitos, sequilhos e outros quitutes.


As marcas daqueles passos, finalmente, chegam ao fim. A menina entra na sala, desconfiada. A mãe está deitada no sofá assistindo à novela. Inerte, dopada pelo entretenimento alienante - o único que possui após um dia de muito trabalho. Nem percebe a presença da filha à porta. Também, não se lembra da pergunta que lhe foi lançada na hora do almoço. Aliás, nem sabe mais a resposta que deu.

- Mamãe, por que eu não sou branca como você?

- Quando eu era pequena, passei polvilho de araruta no corpo e fiquei assim.

A fase dos porquês já começava a dar frutos na filha. Tantas perguntas todos os dias que a mãe não queria, não podia ou não sabia responder. Quantas respostas falsas, mentirosas, incompletas ou vagas. A mãe precisava inventar inúmeras estórias e até achava natural. Desde sempre, os adultos contam mentiras às crianças.

A menina só queria entender por que não era tão clara quanto as suas bonecas de cabelos dourados ou as apresentadoras de programas infantis. Por que a Branca de Neve, a Rapunzel ou a Chapeuzinho Vermelho não eram da sua cor? Por que seu cabelo era chamado de ruim? Por que as pessoas bonitas eram brancas?

De repente, a mãe se levanta e vê a filha coberta de polvilho. Lágrimas traçam vários caminhos no rosto da criança. O desconsolo e a decepção da menina são transparentes. A mulher não acredita no que vê, mas escuta um lamento:


-Mamãe, por que não deu certo comigo?





segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Sem rescisão

Ainda espero a resposta da carta que lhe enviei
Anos de silêncio transcritos num pedaço de papel
Minha primeira carta de amor:
Ridícula!


Sobrepus meu desabafo num desenho que fiz
A mão segurava uma rosa,
Oferecia-lhe
Nos tons branco e grafite
Da folha e do lápis


Nada lhe cobrei
Nem mesmo a tal resposta que nunca recebi
Calei-me novamente
Nas linhas do soneto a você
Que também lá estava

Apenas um telefonema que não pude atender
Um recado, não me deixou
Só o seu nome e nunca mais

Minha declaração
Queimada,
Rasgada,
Esquecida,
Abandonada,
Chacoteada,
Menosprezada

Sem ter, ao menos, direito a um fim
Continuei sozinha
Perdida!
Com um amor de mão única


P.S.:Como eu havia feito dois textos para o meme que recebi, resolvi postá-lo também, mesmo fugindo as regras da brincadeira do texto anterior a esse.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Não o quero mais

Desde o início, eu sempre soube que nosso relacionamento não podia dar certo. Mesmo esperando por isso, ainda sinto esse nó na garganta precedendo o gosto da última lágrima que insiste em cair. É triste chegar a essa conclusão (que já é lugar-comum) depois de tão pouco tempo. A verdade é que o fim dói.

Às vezes, fico me perguntando por que deixei tudo isso acontecer. Eu te conhecia bem demais. Éramos amigos de infância. Você me contava suas aventuras, seus namoros, seus planos. Eu gostava das suas histórias, do seu jeito engraçado, das suas implicâncias. De vez em quando, já que prefiro ouvir a falar, também lhe confidenciava meus sonhos e meus amores sempre platônicos.

Passamos por tanta coisa juntos, inclusive uma separação. Você queria voar. Precisava seguir seu caminho. Nossa amizade, entretanto, sobreviveu à distância. Pelo menos até o dia que você chegou com uma conversa meio estranha. Disse-me que estava se apaixonando por mim. Assim, do nada.

Primeiro achei que era mais uma brincadeira sua. Não era. Lembro que nem consegui manifestar qualquer reação. Sinceramente, não esperava por isso. Acabei desconversando. Consegui escapar pela tangente. Depois fingimos nada ter ocorrido.

Todavia, você nunca deixou de insistir. Apesar de namorar outra garota, me mandava flores, fazia serenatas e declarações. Resisti por muito tempo. Pensei que você desistiria, mas me enganei. Aos poucos, passei a vê-lo com outros olhos. Não mais enxergava, em você, só um amigo. Cedi. Foi o meu erro. Você venceu e eu o amei. Fui tola demais.

Matamos a amizade com nosso primeiro beijo. O princípio do fim. Um assassinato injusto: nossa relação exauriu-se muito cedo. Antes nem tivesse começado. Dessa vez, a distância foi a sua desculpa: “Não quero te machucar, pois sei que quando estiver longe, não conseguirei ficar sozinho como você ficará a minha espera”. Sinceridade? Obrigada. Se era para ser assim, por que a insistência? Eu, mais um prêmio para sua coleção de cacarecos.

Agora você vem me pedir desculpa. Se ainda o amo, eu sei lá. É tarde para você. Não me fale de arrependimento. Nunca mais me declare seu amor. Não venha com esse papo de continuarmos amigos. Seu amor (uma mentira), não o quero mais. Tudo acabou. Não o conheço. Não sou sua amiga. Não guardo mais sua foto 3x4 na carteira. Rasguei o livro que você me deu. Joguei nossas lembranças no lixo. Adeus!

O texto acima é uma incumbência muito interessante (um meme) que recebi de duas pessoas incríveis e com o dom de transformar palavras em vida transbordante de sentimentos: Renan Rigo e Fran Rodrigues. Na verdade, acabei fazendo dois textos: esse que segue as regras do meme e um outro que foge um pouco da tarefa, mas sem perder o clima da brincadeira.

A proposta inicial é que os indicados façam um texto como se rompesse com alguém. A ideia foi inspirada na exposição Cuide de Você, da francesa Sophie Calle, que convidou 104 mulheres para interpretarem um email de seu ex-namorado que gostaria de romper o relacionamento de ambos.

Regras do meme:
1 – Escrever uma carta como se você estivesse rompendo com seu (sua) namorado (a);
2 – Escrever estas regras e uma breve explicação do que é o meme ;
3 – Indicar cinco pessoas.
Indicados: Isaura Carrijo, Lídia Amorim, Núbia Rodrigues, Iêda Fonseca, Ailton Sobrinho

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sumiço: o caso de Hélio

O pedreiro, Hélio Vicente dos Santos, 32 anos, ainda encontra-se desaparecido. Ele foi visto pela última vez, há uma semana, por seu colega de trabalho, Álvaro de Oliveira. Os dois estavam trabalhando na reforma da sede abandonada de uma fazenda, que foi construída em 1887, no município de Caiapônia. Faz mais de três meses que as obras começaram.

Álvaro explica que Hélio estava muito agitado no dia que sumiu. “Quando terminamos nossa jornada, ele não quis vir embora comigo como de costume. Disse que precisava ficar para adiantar o serviço”. Por causa da distância da fazenda, os dois só iam à cidade nos finais de semana. Entretanto, na última sexta-feira, Álvaro partiu sozinho.

Hélio é pai de três filhas: Maria Clara, 5 anos, Maria Vitória, 3 anos e Maria Lúcia, 9 meses. Sua esposa, Nadéia, está desesperada à procura do marido. “Hélio sempre foi muito bom para mim e para as crianças, mas, desde que ele começou no novo emprego, ficou mais distante da gente”, desabafa.

Ela confessa, aliás, que não gostava nem um pouco do novo trabalho do marido. Segundo Nadéia, no início, Hélio até pensou em desistir, apesar da boa remuneração que receberia. A esposa explica que, na primeira semana, ele chegou em casa amedrontado. Jurava de pé junto que a casa era mal assombrada e que uma velha apareceu a eles, dizendo-lhes ser a dona do lugar. “Até pensei que meu marido estivesse ficando maluco”, admite.

Álvaro, meio assustado, revela que a história de Hélio era verdadeira. Ele também esteve presente durante as visitas da tal velha. “A primeira vez que a vimos, pensamos se tratar de uma pessoa de carne e osso. Nós a avistamos quando a mulher surgiu lá das bandas do rio. Era fim de tarde. O sol já estava quase se pondo. Hélio, mais comunicativo que eu, foi logo puxando conversa. Perguntou quem era ela, por que estava sozinha e de onde vinha. Com um sorriso estranho, ela respondeu que era a dona da casa e morava lá fazia muito tempo”, conta.

De acordo com o pedreiro, não foi muito difícil perceber que aquela senhora era uma “alma penada”. “Ela tinha um cheiro forte de rosas e os olhos mais azuis que eu já vira. Seu olhar e a sua voz rouca me causavam um esquisito arrepio”, assume. Álvaro acredita que Hélio também sentia a mesma sensação quando estava perto da velha. Tanto é que os dois pensaram em desistir daquele serviço.

Apesar do medo, entretanto, eles não abandonaram a obra, já que, conforme Hélio, a mulher não os hostilizou nem quis afugentá-los. Ele narra que, durante o dia, ela ficava por perto: ao redor da casa ou passeando pelo quintal. Às vezes, conversava com eles. Outras, limitava-se a um meio sorriso. Todavia, à noite ela entrava na casa. Falava sobre coisas sem sentido e afirmava possuir uma fortuna. Nunca, porém, dizia-lhes o seu nome.

“Aos poucos percebi que a velha não gostava muito de mim, pois começou implicar comigo. Talvez seja o fato de eu ser evangélico, não sei. O pior é que, nos últimos dias, a implicância deu lugar à agressão. Não eram raros os beliscões e os puxões de cabelo que ela me dava. Ficou complicado dormir com essas perturbações”, alega.

Ainda segundo o pedreiro, Hélio era o “queridinho” da tal mulher. “Ela até deitava na mesma cama que ele e ficava passando a mão pelo seu cabelo”. Álvaro acredita que embora Hélio não gostasse daquela situação, acabou se acostumando, já que a velha era insistente e não admitia ser contrariada.

Foi por meio do próprio marido que Nadéia soube da predileção do ser do outro mundo. “Nunca vi uma fantasma tão safada”, suspira. De acordo com Nadéia, seu marido, além de cafunés, recebeu uma proposta tentadora daquela senhora. A velha lhe revelou ter escondido suas jóias antes de morrer e que ninguém até hoje as encontrara. “Ele me contou que a alma penada prometeu dar-lhe sua fortuna, se ele a acompanhasse até o esconderijo”.

Hélio tinha medo do que pudesse acontecer caso cedesse a tal proposta. Conforme sua esposa, ele chegou a pedir à velha para levar outra pessoa consigo, mas ela não aceitou. Ele devia ir sozinho e sem ninguém saber. “Eu disse para o Hélio não cair na conversa de fantasma, mas meu marido queria dar uma vida melhor para gente”, Nadéia desaba em lágrimas.

O delegado da cidade, João Aparecido Vilela, está investigando o caso, mas, obviamente, descarta a hipótese relacionada à fantástica história narrada por Nadéia e Álvaro. “O povo dessa cidade é cheio de superstições e crendices”, comenta. Os policias já fizeram uma busca por, praticamente, toda extensão da fazenda, contudo não encontraram nenhum vestígio sobre o paradeiro de Hélio.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O primeiro furto



O ano era 1987. Ano da morte do grande poeta, contista e cronista brasileiro: Carlos Drummont de Andrade. Um mineiro graduado em farmácia que nos deixou saudades e versos voando livres por nossas vidas, já que sempre encontramos uma pedra no meio do caminho e, assim, só nos resta perguntar: E agora José?


Nesse mesmo ano, um aparelho utilizado em radioterapia foi furtado das instalações de um hospital abandonado, no centro de Goiânia. O misterioso e encantador sal do Césio 137 provocou um grave acidente radiológico no Brasil. Morte, câncer, discriminação, desespero, sequelas, dor.


Também em 1987, José Sarney, então presidente da República, anunciou o Plano Bresser, congelando os preços e os salários para tentar conter a inflação. O mesmo Sarney, que hoje se encontra envolvido num mar de corrupção como presidente do Senado, decretou, ainda naquela época, a moratória da nossa dívida externa.


Além disso, foi em 1987 que os presidentes das principais potências econômicas do mundo - Mikhail Gorbatchev (União Soviética) e Ronald Reagan (Estados Unidos) - assinaram um importante acordo para o desarmamento nuclear nos dois países. Foi um grande passo, pois durante a Guerra Fria, lastimosamente, o armamento nuclear aumentou de forma substancial. Todavia, não foi suficiente.


Enfim, foi em tal ano que uma menininha de uma pequena cidade do interior de Goiás cometeu seu primeiro furto. Tão distante do Drummont, do césio, do Sarney ou de armas nucleares. Seu nome: Aninha. Idade: quatro anos incompletos. Pode ter sido um início precoce, talvez. O fato é que há crianças que, com a mesma idade ou menos, infelizmente, já fizeram coisas piores.

Era uma tarde de domingo. O astro-rei mostrava toda a sua potência. Hora da sesta. Preguiça e barriga cheia. Comida de avó. Galinhada com pequi e bastante pimenta. Família reunida. Duas primas: a primeira, nossa pequena ladra e a segunda, Clara, 10 anos de idade.


As duas tinham uma missão, ou melhor, uma ordem: comprar, para o pai de Clara, uma cartela de cigarros. Veneno nojento, símbolo do poder e glamour de outrora. Droga lícita que pode ser comprada por qualquer criança e em quaisquer lugares (não sei como um pai não tem vergonha de pedir isso a um filho). Um porém: trazer o troco.


As duas partem em direção ao secos e molhados do outro quarteirão. Na mão, o dinheiro. Em suas bocas, os versos da canção da moda: “Coloca o disco na vitrola/Banho de lua, nós dois/ Oh, cupido! / Só um carinho e depois ficar contigo/ Mas tem alguém espionando no sofá”. Sucesso da novela das seis:Bambolê. Farra de criança.


Chegam. Clara escolhe a marca de cigarro preferida do pai. Com os cruzados que lhe entregara, paga o comerciante. Ao receber o troco, entretanto, Clara é atraída por um pacote de biscoitos. Ele está ali no balcão. Cheio de cores, sorri para ela. O personagem infantil da embalagem insinua-se. Era um tal de Fofão. Olha o preço. Exatamente o valor do troco. Hesita. Pensa. Deixa-se vencer. Compra.


Aninha tudo vê, mas não diz nada. Não entende a desobediência da prima. Clara percebe os olhos interrogativos da menina. Teme ser delatada.


- Se você não contar isso a ninguém, eu divido o pacote com você. Sussurra isso como se fosse o maior segredo do mundo.


Proposta tentadora. Aninha aceita. Adora o lanchinho do fofão. Elas voltam para a casa da avó. Os adultos contam piadas, falam dos doentes e dos inadimplentes, contam os mortos da semana. Clara entrega os cigarros para o pai. Entretido com o papo, ele pega o embrulho e só. Já nem lembra a quantia que havia entregado a filha.


Clara olha para Aninha e esta lhe devolve o olhar. As duas vão para o quartinho de despensa. Sacos de arroz e feijão, pacotes de sal, açúcar e farinha. Bagunça organizada. Aninha pensa que seria a hora de dividir o biscoito. Não era. Clara não prentendia dividir nada com a prima. Esconde a guloseima dentro da saco de feijão. Explica que comeriam mais tarde.


Contudo, mais tarde chega, mas a tal partilha não. Aninha cansa de esperar. Hora de ir embora. Despedidas e bênçãos. Clara espera a prima sair para comer o biscoito sozinha. Aninha aproveita o tumulto da partida; vai à despensa; pega o pequeno pacote. Precisa escondê-lo de Clara. Encontra apenas um esconderijo: sua calcinha de babado. Era a única peça de roupa que vestia. Coloca o biscoito na parte detrás. Pega na mão de sua mãe. Saem a pé.


- O que essa menina tem na calcinha? Uma pergunta, no meio do caminho, para a mãe de Aninha. Era uma mulher de saia comprida, cabelos longos e uma bíblia debaixo do braço que vinha caminhando atrás das duas há poucos minutos.


Só então a mãe percebe a protuberância estranha na roupa da filha. Puxa-a pelo elástico. Lá está o lanchinho do fofão. Aninha é descoberta. Beliscões pedem uma confissão. A menina emudece.


Finalmente, chegam em casa. As lágrimas não cansam de percorrer o rosto de Aninha. Os beliscões dão lugar aos tapas. Aninha fala. A mãe não sabe se acredita. O pacote fica na mesa. Dali vai para o lixo pelas mãos da mãe. Nem Clara, nem Ana comem o biscoito.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Um outro Aleijadinho


Ele está ali na escadaria da Igreja. Pele escura, barba por fazer, camiseta da última eleição, estampada por um político qualquer: rasgada. Sapatos, tênis, sandálias, jeans e outros tecidos passam por ele todos os dias. São pés e pernas de todos os tamanhos e tipos.

Mesmo tropeçando nele, muitos não o enxergam. Ele pede esmola. Poucos lhe oferecem. A maioria desvia o olhar ao encontrá-lo jogado no chão. Vários fingem ser surdos, cegos ou, quem sabe, mais um estrangeiro, mas sem cabelos loiros e olhos azuis.

Os profetas são seus companheiros do dia-a-dia. São doze colegas de trabalho que se tornaram seus únicos amigos. Anos e anos de convivência. Relação de cumplicidade e silêncio. Ele sabe o nome de todos e conhece suas histórias, duvida, entretanto, que aquelas pessoas se interessam por isso. Querem é tirar fotografias. Fazem poses e mais poses. Comentam os detalhes das esculturas. Brincam de imitá-las.

Ele não gosta do comportamento dos turistas e acredita que Antônio Francisco de Lisboa também não gostaria de ver nada daquilo. Todavia, precisa dos turistas. Precisa das moedas que lhe dão. Precisa do sorriso da menina bonita. Sorri com ela e para ela. Sorriso desdentado e radiante.

Contudo, não pode levantar-se para agradecer o simples gesto que o dignifica. Não pode acompanhá-la ou guiá-la pelo cenário que conhece mais do que ninguém. Suas pernas jamais poderão procurar aquele sorriso que vai embora, provavelmente, para nunca mais.

sábado, 25 de julho de 2009

Um velho amigo

Estranho como eu não consigo me lembrar, exatamente, de como ele era. Lembro-me da cor do seu pelo, dos seus olhos, do seu tamanho, contudo o seu semblante desapareceu da minha mente. Nem percebi o momento que isso aconteceu. Faz 14 anos que ele se foi, mas suas marcas ficaram gravadas para sempre na minha memória.

Tentei procurá-lo no velho álbum de fotografias da família, porém lá havia uma única foto de quando ele ainda era apenas um filhote. Tão bonitinho e pequeno. Ele estava em cima da mesa de centro da sala e eu, uma criança de colo, nos braços do meu pai.

Naquela época não existiam tantas máquinas fotográficas como hoje. As de tecnologia digital, então, eram inimagináveis, pelo menos, para as pessoas da pequena cidade do interior onde nasci. As fotografias precisavam ser reveladas. Além disso, a maioria era tirada por fotógrafos profissionais, que iam de casa em casa. Nem todas as famílias possuíam uma câmera. Talvez isso explicasse apenas aquela foto ali no álbum.

Entretanto, não foi aquele filhotinho da foto que fez parte da minha infância. Ele entrou para a família pouco menos de um ano antes de mim. Quando eu nasci, aquele vira-lata bagunceiro ainda reinava soberano no meu lar. Todavia, embora eu tenha usurpado seu lugar, ele me acolheu carinhosamente.

Já ouvi dizer que cada ano de idade de um cachorro corresponde a sete anos do ser humano. Portanto, quando nasci, meu cachorro tinha quase sete anos; só me lembro dele já adulto. Não sei se isso é verdade, porém, infelizmente, logo descobri que os cães vivem bem menos que a gente.


Minhas primeiras lembranças são carregadas pela sua presença. Ele sempre esteve lá: quando dei meus primeiros passos e disse as minhas primeiras palavras, roubando meu lanche ou lambendo meu rosto. Foi até, pacientemente, meu cavalo upa-upa e, é claro, meu amigo incondicional.

Penso que só quem tem ou já teve um cachorro de estimação pode entender tal amizade. Aliás, acredito que as pessoas que gostam dos animais são bem melhores do que as que não gostam ou se mantém distantes. Não é à toa que já existem pesquisas apontando nossos bichinhos como remédios auxiliares para o tratamento de certas doenças.

Leão foi o meu primeiro cachorro. Como eu gostava dele e como ele fez um bem enorme para mim. Toda vez que minha mãe brigava comigo, era ele que me consolava. Pode parecer estranho, mas eu lhe contava tudo. O seu silêncio era meu conforto. Quando eu chorava, ele enxugava minhas lágrimas. Eu, ainda criança, nem me importava com sua língua passando pelo meu rosto. Nas minhas fugas imaginárias, aquele cachorro era meu único companheiro.

Quantas vezes enganando a todos, ele conseguia escapar para acompanhar-me no caminho da escola. O difícil era convencê-lo de voltar para casa. Ele ficava na porta do colégio até terminar a aula. Nunca conheci cachorro mais esperto (olha que depois dele eu tive vários outros). Sem exagero, ele era capaz de abrir o portão de casa com a pata e se este estivesse trancado, sem muito esforço, pulava o muro de quase dois metros de altura. Leão era um cão vigoroso e cheio de energia.

Aos domingos, minha família costumava almoçar na casa de minha avó materna. Sua companhia nessas ocasiões era certa. No fim do dia, quando todos se despediam para ir embora, eu me escondia sem ele perceber e, mesmo doido para voltar para casa, só ia quando me encontrava. Podia ser debaixo da cama, dentro do guarda-roupa ou atrás da porta, ele sempre me achava. Faro perfeito.

Leão não era um cão para se manter preso em casa. Farejava a liberdade e a buscava. Gostava da rua. Às vezes, ele sumia por alguns dias. Eu chorava pensando que meu cachorro pudesse ter morrido ou sumido de vez. Mas ele sempre voltava. Geralmente, estava envolvido com uma cadela no cio em um bairro distante.

Encrenqueiro, vivia brigando com outros cachorros. Como resultado, voltava todo cheio de feridas. Além disso, Leão era um ladrão de mão cheia. Os vizinhos não podiam deixar nenhum alimento dando bobeira que ele pegava: queijo, carne e pão. Reclamações não faltavam. Não pensem que meu cachorro passava fome. Era guloso. Se não conseguisse comer tudo, enterrava o restante no fundo do quintal. Perdi a conta de quantos pães eu o vi enterrar, embora jamais tenha o visto desenterrar algum.

Até hoje não entendo de onde vem a relação conflituosa entre cães e gatos. Já vi alguns conviverem pacificamente, mas não era o caso de meu cachorro. Ele odiava gatos. Bastava ver um para persegui-lo ferozmente. Uma vez ele aprontou uma que nos deixou mais do que constrangidos: matou o gato da vizinha. Péssima situação para minha família. Outro animal que ele detestava era marimbondo. Apesar do ferrão, o Leão pegava-os no ar e, raivosamente, mastigava-os.

Deve ter sido por essas e outras que um dia ele foi esfaqueado. Depois de dois dias sumido, chegou em casa ensanguentado. Pensei que daquela vez ele não escaparia, mas, para minha felicidade, sobreviveu. Meu pai, que não é médico nem veterinário, costurou o corte. Todavia, antes mesmo de melhorar por completo, a liberdade o chamou, e ele pulou o muro como de costume. Com o esforço, os pontos se abriram e meu pai novamente fez a sutura. E mais uma vez ele sobreviveu.

Entretanto, à medida que eu crescia, Leão envelhecia. Meu cachorro já não aprontava como antes. Aos poucos, foi perdendo os dentes e parecia caducar. De vez em quando, cochilava em pé e não controlava a bexiga. Chegava a urinar enquanto dormia. Já não bebia a água do vaso sanitário. Também não rolava mais nas carniças que encontrava durante suas andanças. Como era triste vê-lo assim. Eu estava saindo da infância e perdendo um grande amigo. Nunca esquecerei o seu olhar de despedida antes de morrer. Queria ajudá-lo, salvá-lo, fazer algo por ele, mas nada adiantaria. Ele tinha 13 anos quando vi seus olhos se fecharem para sempre.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A dieta do chuchu

Ela queria perder só alguns quilinhos indesejáveis. Quatro seriam suficientes. Qualquer mulher quer isso, ou melhor, quase todas. Mas precisava ser rápido: uma semana. Quando se tem 17 anos, não dá para esperar. Tudo é para ontem. Dieta dos pontos, dieta da USP, dieta do sangue, dieta das proteínas, dieta dos carboidratos, dieta do alfabeto. Dieta, dieta, dieta... Entre tantas opções, prefere a dieta da moda: a do chuchu.

A princípio, não lhe agradou a ideia de comer apenas esse vegetal que não tem gosto de nada, nem fede nem cheira. Além disso, apesar de não ter nada a ver com a necessidade de perder peso, detestava as gírias ultrapassadas com tal fruto. Se uma mulher fosse bonita, logo a chamavam de chuchu. Se algo era exagerado, era muito pra chuchu. E o cumprimento chuchu beleza?Achava-o, no mínimo, ridículo. Contudo, não lhe custava nada tentar, já que, conforme pesquisara, seu novo alimento possuía alto teor de fibras, um pouco de potássio, vitaminas A e C e, óbvio, pouquíssimas calorias.

Sopa, suflê, salada, estrogonofe, molho, tudo de chuchu. Foi assim o cardápio da garota no início da semana (qualquer dieta que se preze começa na segunda). Até que não foi tão difícil, para ela, comer aquelas iguarias. Havia, porém, um problema: o excesso de fibras provocou-lhe uma terrível hipermotilidade intestinal. Bastaram dois dias para os efeitos colaterais surgirem.

No meio da aula de física do cursinho pré-vestibular, as três leis de Newton transcritas no quadro pelo professor - Princípio da Inércia, Princípio da Força e a Lei da Ação e Reação – a garota começa a sentir algo estranho: uma briga acontecia na sua região abdominal e provocava-lhe uma dor horrível. Com certeza, era a reação do seu corpo a mais uma dieta maluca. Newton tinha razão. Pediu licença para o professor e foi ao banheiro. Sentou-se no assento sanitário. Alívio e diarreia (agora, pelas novas regras ortográficas, sem acento – já pensou o estrago numa hora dessas?).

Entretanto, apesar do seu problema ter ido embora junto com a descarga, ela pressentia a chegada de outros. Alegando uma terrível cólica menstrual, uma vez que se sentia constrangida por estar com piriri, ela consegue permissão para sair mais cedo do colégio. A garota morava bem perto, apenas a dois quarteirões dali. Tentou andar o mais rápido que podia e que os seus saltos permitiam para chegar logo, porém a dor chegou mais rápido do que ela e a pegou no meio do caminho.

Estava na Avenida Paranaíba, centro da capital. Já podia ver a portaria do seu prédio. Faltava muito pouco. Não conseguiu segurar. Era missão impossível. Borra as calças. O líquido fétido escorre pelas suas pernas. A vergonha. Entra no prédio sem olhar para a cara do porteiro. Pensa em subir pelas escadas. Décimo primeiro andar. Chama o elevador. Reza para não aparecer ninguém. Entra. Do nada, surge um senhor de terno e de meia idade. Aquele homem impede o fechamento da porta e, para seu desespero, também entra.

“Bom dia”, ele diz. Ela sorri sem graça. Ele, então, começa a forçar a respiração como um cachorro aguçando o faro. “Acho que alguém deve ter descido com o lixo”, comenta. Ela balança a cabeça numa afirmativa. Suas preces, dessa vez, são atendidas: a porta é aberta. A garota sai. Nunca o elevador subira tão devagar.


terça-feira, 21 de julho de 2009

Crônica de uma farmacêutica I

Cinco e meia da tarde. Sexta-feira. Quase fim de expediente. Quase: palavrinha sem graça, sonsa e dissimulada. Não chega nem a ser um meio termo. Também não pode ser considerada insignificante. Resto que atrapalha a completude. Enfim, faltam apenas trinta minutos para eu ir embora. Ligar meu carro. Pegar um congestionamento. Motoristas apressados. Buzinas inconvenientes. Chegar em casa. Tirar os sapatos. Jogar-me no sofá.

No entanto, a meia-hora não passa. Olho mais uma vez no relógio. Os ponteiros continuam no mesmo lugar. Clientes querendo dorflex, dipirona, sonrisal e tinta para cabelo. Rotina. De repente, pela porta principal, surge um bêbado. Um senhor magro, estatura mediana, aparentando ter vivido, pelo menos, umas seis décadas. Chega gritando que precisa falar com o veterinário. Eu sabia que a veterinária, nesse caso, era eu. Nessas horas eu queria ficar invisível. Bem que ele podia ter demorado um pouco mais no buteco, trinta minutinhos seriam suficientes, mas estava ali, escandalosamente.

Impossível não chamar atenção de todos: clientes, colegas de trabalho e, é claro, curiosos. Com dificuldade, o bêbado chega até o balcão e pergunta quem é o veterinário. Sinto vários olhares em minha direção. Não tenho como escapar. Apresento-me com uma boa tarde, em que posso ajudá-lo. Recebo outra pergunta: “Você que é a veterinária daqui?” Tento explicar que no estabelecimento não há o profissional que ele procura. Obrigatoriamente, digo que sou farmacêutica. “É com você mesmo que eu quero falar”, afirma e pede para eu provar o que eu estava dizendo.

Engraçado como nunca ninguém havia me pedido isso antes. Digo às pessoas que sou farmacêutica e pronto; elas acreditam. Só que, justamente, aquele bêbado queria uma prova. Até tenho uma carteira profissional do Conselho Regional de Farmácia (CRF), mas não costumo carregá-la na minha bolsa. Sem saber o que fazer, a única coisa que me vem à cabeça é a Certidão de Regularidade. Retiro-a da parede. Lá está meu nome e CRF no espaço destinado ao farmacêutico responsável técnico. Mostro ao senhor. Ele aceita. Questão resolvida.

E agora?Um silêncio rápido. O bêbado coloca as mãos no bolso e tira um bolo de notas de 50 reais. Grita que precisa de um remédio para levantar a pitomba. “Hoje a veia vai ter”, completa. Procuro os olhos das pessoas para pedir ajuda, mas só vejo risos contidos e incontidos. Lógico que eu sabia qual medicamento ele queria. Contudo, o que fazer? Tento convencê-lo que é preciso procurar um médico. Pergunto se ele tem problemas cardíacos. Tudo em vão. Ele repete, aos gritos, que quer um remédio para levantar a pitomba de qualquer jeito. Pitomba?Tal denominação para o órgão sexual masculino era nova para mim.

Viro-me para a prateleira de medicamentos. Perco-me entre eles. Vender ou não vender?O bêbado fica impaciente e grita cada vez mais. “Quero levantar minha pitomba”. Preciso sair dessa situação. Pego um tadalafil, princípio ativo usado para disfunção erétil, e entrego-lhe. Ele pega a caixa, paga e, finalmente, sai. Procuro o relógio. Já passaram trinta minutos das seis horas. Vou para casa. Consciência pesada. Na segunda-feira a notícia: o bêbado morreu. Parada cardíaca. Uma caixa de medicamento foi encontra ainda lacrada no seu bolso. Respiro.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Casquinha de sorvete


Ela sentou-se ao meu lado. Nem me pediu permissão. Havia tantos lugares vazios ali. Shopping, meio da tarde, terça-feira. Achei meio estranho, mas não me importei, exceto pelo fato de estar saboreando uma deliciosa casquinha de sorvete de baunilha com calda de chocolate e ter uma pessoa me observando. Ofereci-lhe minha guloseima, ela recusou.

Comecei a ficar bastante incomodada com a situação. É chato comer quando há alguém nos olhando, ainda mais se tal alguém é um completo desconhecido. Perdi até o jeito. Seu olhar era inquietante. Seu silêncio, uma angústia. Devia ter entre 40 e 50 anos (não sou muito boa com idade). Perguntei, então, qual era seu nome e se ela queria que eu lhe comprasse uma casquinha. Como resposta, obtive apenas um sorriso amarelo.

Perdi o interesse pelo sorvete que se desfazia na minha mão. Eu, uma consumidora “casquinha” - como os lojistas chamam as pessoas que vão ao shopping apenas para ver vitrines e depois comer alguma besteira - levantei-me para ir embora. Não fui. Ela fez um gesto para que eu ficasse e confidenciou-me: “Já tive sua idade e nem gostava muito de sorvete. Não sabia o quanto eu desejaria um hoje. Quando te vi, lembrei-me das coisas simples da vida que não dei valor. Só descobri o sabor dos doces quando me deparei com o diabetes”. Disse isso e retirou-se.

Para o dia do amigo

Nunca esquecerei o dia que te conheci.
Estava presente desde o início:
no primeiro dia da escola,
nos rabiscos das primeiras letras,
nos desenhos coloridos com lápis de cor.

Quando descobri
a matemática,
o português,
a história,
as ciências,
a geografia.
o inglês
e a religião,
também me acompanhava.

Precisei de você para brincar,
compartilhar conhecimento,
aprender e ensinar.
Precisei do
seu ombro,
do seu conselho.

Dividimos
sonhos,
segredos,
indecisões,
angústias,
medos,
conquistas,
fracassos.

Cresci.

Ao meu lado continuava:
no vestibular,
na faculdade,
no namoro,
no emprego.

Você mostrou-me diversas faces,
criança, adolescente, jovem e adulto,
homem e mulher.
Tantas vezes chegou e
outras tantas foi embora.

Jamais me abandonou.
A distância e o tempo
não conseguiram nos separar,
porque se um amigo vai,
manda outro no lugar.
Todos insubstituíveis.
Deixam uma saudade.

domingo, 19 de julho de 2009

Um e outro



Eles sempre andavam juntos. Ao nascerem, foram enxotados. Um foi abandonado no lixão. O outro, deixado no quintal de alguma família que, também, não o quis. O único lar que os acolheu foi a rua. Da periferia da metrópole, conseguiam extrair seu sustento. Pelo menos ali, as pessoas são mais solidárias com o infortúnio alheio, talvez, por medo de sofrerem ou por terem superado, em algum momento da vida, uma situação semelhante.

Aquele pedaço da cidade parecia um órgão vestigial. Vários moradores viviam ali sem sequer dar conta do restante do mundo. O mundo era aquele lugarzinho: desnecessário e inconveniente para os outros. Jovens não conheciam o centro da cidade, nunca entraram em um shopping ou pegaram um elevador. Idosos só se retiravam para o infindável descanso. Todavia, tal isolamento propiciava a amizade. Não aquela amizade de fim de semana, das farras e bares ou aquela dissimulada que, apenas, deseja favores, mas a que transparece na troca de olhares, linguagem silenciosa e cheia de significados.

A amizade dos dois era assim. Quando começou, ninguém sabia. A existência de um atrelava-se a do outro. Inseparáveis. Não para sempre. Um dia de sol forte. Quatro horas da tarde. Um passeio. Eles estão atravessando a rua. Alegres. Um ônibus. O motorista podia ter freado, nem estava em alta velocidade. Os dois, criaturas insignificantes. Distraídos, não viram. Um consegue atravessar. O outro, pequeno que era, acaba debaixo do veículo. Se ele tivesse ficado parado, nada aconteceria. Contudo, o medo, a sensação de estar naquele lugar ou a vontade de sair não o deixam quieto como deveria. Tenta sair. Vai de encontro a roda. Ela esmaga seu crânio. A morte.

O amigo do outro lado não acredita no que vê. Assistiu a tudo. Queria ter alertado o companheiro para não se mexer, mas não foi possível. Tudo tão rápido e eterno. O ônibus vai embora insensível. O ruído do esmagamento da cabeça era o pior som que já ouvira. Ele vai até corpo. Cheira pela última vez seu amigo ali no meio da rua. Logo um comerciante retira o vira-lata do caminho. Menos um cachorro sem dono. O outro vai embora com o rabo entre as pernas.